quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Anotações Sobre um Escândalo - Zoe Heller



Anotações Sobre um Escândalo

Segunda Edição do Livro, com a Capa alusória ao filme.

“Eu a observei com o mesmo interesse de quem observa os astros: profunda deferência e interesse morno, a observava como a uma cena de teatro, desumanizando-a; a verdade é que eu a odiava, seu modo ácido de observar as pessoas, seu jeito mesquinho, arraigado em tradição e distância. Odiava sua solidão, sua falta de empatia, seu sagaz modo de desvelar a vida como se esta estivesse pronta a ficar nua diante de seus olhos jocosos. Detestava até mesmo seu amor por sua gata. No entanto, antes de dizê-lo em voz alta, eu não havia entendido ainda o porquê de todo meu interesse em observá-la.
Entendi, de pronto, meu ódio por ela: sua presença era uma lembrança constante de quem eu viria a me tornar quando chegasse aos sessenta; ela era meu retrato de Dorian Gray, mas eu não continuava jovem a medida que ela envelhecia, não, ela era quem eu seria. Eu a odiava porque sabia que, no fundo, eu também odiaria a mim.”
(Thiago Félix, Meus sentimentos sobre Bárbara)

Anotações sobre um Escândalo é um livro de 2003, escrito por Zoe Heller; e tendo sido adaptado para o cinema em 2006 num filme de nome Notas Sobre um Escândalo, que apesar de não ser de todo fiel ao livro, é uma excelente obra.
O livro é narrado por Bárbara Covett, uma professora de sessenta anos, dona de uma vida solitária, não tendo sido casada, sem amigos, distante de sua única parente viva, sua irmã; cuja única presença constante na vida é a de sua gata Portia já idosa. Ela não é, contudo, a protagonista desde livro.
Sheba Hart, a protagonista, ingressa na St. George como a nova professora de cerâmica, onde Covett é professora há duas décadas, sendo dotada de grande simpatia e beleza, a professora de 40 anos logo chama a atenção de todos os seus colegas — incluindo-se aqui nossa narradora — e para sua desgraçada, de um dos alunos, Connolly, de 15 anos, com quem já nas primeiras páginas sabemos que ela manterá um caso.
A idéia é fazer Sheba falar, diz a narradora, colocando-se aqui como alguém a margem de toda história; uma espectadora e confidente de Sheba, por quem ela nutre uma estranha obsessão decorrente de seu intenso medo de permanecer sozinha; a solidão é a marca recorrente desta personagem — que é de longe minha favorita por sua densidade — e até mesmo seu caráter de guardiã dos segredos da protagonista é posteriormente citado como uma das provas de sua desimportância, em suas palavras, de sua inofensibilidade.

“A vida inteira eu fui o tipo de pessoa em quem as pessoas confiam. E a vida inteira senti-me envaidecida por isso —grata pela sensação de importância que se sente quando recebemos uma informação privilegiada. Nos últimos anos, entretanto, eu percebi que esta gratificação está dando lugar a uma certa indignação. Porque, eu me vejo mentalmente perguntando aos meus confidentes, você está contando isso para mim? É óbvio que eu sei porque. Eles me consideram inofensiva. [...]  me fazem suas confidencias com o mesmo espírito que fariam a um castrado ou a um padre — com a idéia de que eu estou tão fora do jogo, tão fora das coisas do mundo, que não ofereço nenhuma ameaça. O número de segredos que eu ouço está na proporção inversa do número de segredos que as pessoas acham que eu possua. E esta é a verdadeira causa do meu aborrecimento. O fato de me contarem segredos não é — nem nunca foi — um sinal de que eu me encaixo ou importo. É justamente o contrário: a confirmação de minha irrelevância.”
(P. 247-278)

Em parte devido a esta sua solidão e ao seu temperamento reservado, Bárbara é uma mulher extremamente amargurada, sempre disposta a analisar os outros, incluindo aqueles próximos de Sheba, com uma visão ácida — diversas vezes até mesmo cruel. — a jovem professora, no entanto, não tem o mesmo tratamento, apesar de ser, dentre todos os personagens principais, aquele que termina por oferecer o maior número de defeitos de caráter.
Voltando ao ponto central do livro, ao menos em seu inicio, o caso de Sheba com Connolly não acontece, como poderia se pensar, pela ausência de seu marido, ou mesmo por uma infelicidade feminina, não; o que esta jovem professora busca num garoto de 15 anos é sua jovialidade, aquele brilho de espírito, aquela franqueza que seu marido, um acadêmico tão velho quanto Bárbara, já não possui, ou jamais possuiu; a verdade é que a protagonista casou-se jovem, com um homem que se assemelhava ao seu pai, um economista muito famoso, tendo sito grata por ser “cuidada” durante tanto tempo por ele; namorar Connolly desperta seu caráter lascivo, mas também é a prova de que Sheba, mesmo em sua meia idade, não amadureceu.
Idade tem um peso constante nesta obra; assim como a questão de gênero, o diferente tratamento que damos a homens e mulheres. Enquanto o marido de Sheba, Richard, aos sessenta é um homem em pleno esplendor de sua carreira acadêmica, Bárbara, de mesma idade, está para além do declínio, completamente ultrapassada; um outro ponto, debatido abertamente no texto, é a diferença do tratamento que damos a ambos os gêneros como ofensores sexuais: muitos dizem, dirá Bárbara, que o garoto teve sorte de ter uma professorinha assim; não veriam com mesmos olhos se a situação fosse inversa, se o caso fosse de um homem de 40 anos com uma garota de 15.
A autora não exprime vantagem em ser mulher neste ponto, deixo claro. Segundo a opinião da narradora, tal fato deve-se a posição da mulher como vista como inofensiva, como subalterna; o comportamento monstruoso é sempre esperado de homens, mas quando quem faz tal comportamento é uma mulher, então a coisa foge tanto dos padrões aos quais estamos acostumados que costumamos dar menos peso ao fato de que a mulher seduziu um menor.
A leitura do livro é bastante fácil, não sendo, entretanto, um livro simplista, ao contrário: é uma obra bastante densa que põe em cheque muitos de nossos valores sociais e a forma como encaramos a vida; também o modo como lidamos com nossos desejos e emoções, principalmente com nossa solidão. É um livro que indico a todos os amantes de drama e de obras que trazem uma profunda reflexão sobre quem somos e nosso papel dentro da sociedade.

(Filme) Notas Sobre Um Escândalo:

Lançado em 2006, estrelado por Judi Dench (Skyfall), como Bárbara Covett e com Cate Blanchett (a Galadriel do Senhor dos Aneis), como Sheba Hart; sendo dirigido por Richard Eyre, com roteiro assinado por Patrick Marber.
A história do filme é muito similar a do livro, contudo, peca ao fazer de Bárbara uma vilã e por evidenciar uma homossexualidade que é, no livro, apenas suposta e que nem é um de seus pontos centrais. Também faz algumas alterações na história de forma a que possamos nos ligar mais a Sheba e escarnecer de Bárbara, o que não foram meus sentimentos para com o livro.
Entretanto, a adaptação é fantástica, o filme é excelente; sendo um dos melhores filmes de drama que já pude assistir; e apesar da história não ser totalmente idêntica a do livro, ele consegue despertar alguns dos mesmos questionamentos que faz a obra literária.



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