segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A Arma Escarlate - Renata Ventura



A Arma Escarlate





Meu contato com Renata Ventura, a escritora do livro, foi bem recente; e é importante que eu o cite, porque se não fosse por ele era bem provável que eu jamais fosse comprar o livro; primeiro por sua semelhança com Harry Potter (fique bem claro, acredito que J.K Rowling, diferente de outras autoras que fizeram sucesso recentemente, é uma excelente escritora, o livro é muito bom, mas não faz meu estilo), segundo que eu estranhei o uso de aspas em vez de travessão para indicar as falas, bem no estilo de livros em língua inglesa. A palestra que assisti da autora, no entanto, me fez dar crédito, porque Ventura, além de uma fofa tem um discurso que muito corroboro sobre a importância do uso da cultura local em livros nacionais.

O primeiro ponto que eu gostaria de tratar é justamente a já citada semelhança com Harry Potter, o livro alias é comumente chamado de O Harry Potter Brasileiro, não por menos, em sua nota de inicio a autora deixa claro que embebeu sua idéia na de J.K, que sejamos francos não foi a primeira pessoa a criar o mito do jovem bruxo, muito menos a precursora da idéia da existência de escolas de magia, apesar de ter criado uma mitologia bastante eficiente e rica e é justamente isso que faz Renata Ventura, ela toma dessa grandiosa fonte criativa que é a mitologia de J.K Rowling e, no entanto, se diferencia desta, de forma que seu livro, de fato, lembra a ideia de HP, mas vai, além disto, muito além. E digo mais, creio que é uma obra que agradará os fãs da autora britânica.

A Arma Escarlate gira em torno de um jovem bruxo, de nome Idá Aláàfin, posteriormente chamado de Hugo Escarlate, um garoto de personalidade dúbia e forte, criado na Favela Dona Marta, em meio ao tráfico de drogas e de todos os problemas de uma comunidade periférica do Rio de Janeiro; ele não é, portanto, um garoto ingênuo, tendo desde o principio da vida entrado em contato com traficantes e mesmo com os assassinatos cometidos por estes; sua mãe, inclusive, apesar de ser uma mulher trabalhadora, havia tido muitos casos com traficantes. Em meio à um confronto entre os chefes do tráfico e a policia, Hugo descobre ser bruxo e recebe o convite para estudar na Nossa Senhora do Korkovado, a escola de bruxaria do sudeste. (há uma em cada região do país).

Uma das primeiras sacadas geniais do livro é justamente a comparação entre a dicotomia Brasil-Europa, no que concerne a cultura e também na qualidade do ensino e na estrutura diferenciada entre as escolas brasileiras de bruxaria e a escola do Reino Unido; aqui há todo um problema estrutural, como não poderia deixar de ser, contudo a autora bate diversas vezes na questão da valorização da própria cultura numa critica muito bem construída dentro da trama ao complexo de vira-lata ( também conhecido como a valorização exacerbada do que vem de fora em detrimento da cultura nacional).

Um segundo ponto que eu acho muito interessante é que ao passo que Harry Potter mantém uma certa distância do mundo “trouxa”, por assim dizer, criando toda uma mítica paralela ao nosso universo cultural; A Arma Escarlate cria um mundo que está mais para anexo do que paralelo, entrecruzando os problemas sociais da realidade brasileira “Azemola”(equivalente a trouxa) com os problemas sociais do mundo bruxo. O livro tem uma inserção ímpar na realidade social, além disso, o personagem principal, herói da trama, é um personagem extremamente denso, dificilmente encontrado em livros da categoria; que foge ao mais do mesmo maniqueísta que estamos acostumados a ver.

O que isso significa? Significa que Hugo Escarlate é uma pessoa boa, mas não é bonzinho; ele é alguém bem próximo da realidade psicológica humana real, algo que a autora consegue, de fato, passar com maestria.

Tornando o livro uma excelente surpresa para mim; de leitura fácil, acessível, sem, no entanto, ser desprovido de discussão séria; se Harry Potter é um livro que nos ensina sobre amizade, amor e perseverança; A Arma Escarlate é um livro que nos fala sobre preconceito, cultura, e também, por não? Amizade, uma amizade que se constrói em percalços estranhos e com um pouco de reticência e desconfiança típica de alguém que perdeu muito e assistiu a muita injustiça.

Super indicado como um dos melhores livros nacionais do gênero; e como uma das minhas melhores leituras este ano.



Um comentário:

  1. Nossa o livro deve ser bom mesmo, ou seja, fiquei interessada rsrs gostei da sua resenha :) http://cantinhodacarolll.blogspot.com.br/2014/12/sombra-e-ossos_29.html

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