segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Fim da Eternidade

Texto original publicado em: Aliadas Literárias

  • Autor: Isaac Asimov
  • Ano: 2007 / Páginas: 255
  • Idioma: português 
  • Editora: Aleph
Há muitos sentidos como alguém diz que devorou um livro, um dos mais fantásticos, no entanto, é quando você abre um livro de mais ou menos 300 páginas e o lê de uma só vez, sem pausas. Devo confessar, no entanto, que isto só aconteceu duas vezes em toda minha vida. Este livro foi um desses casos.

Aliás, caso raro é algo com o qual este livro está perfeitamente acostumado, afinal é também um dos únicos livros centrados numa relação romântica que não cai na armadilha blockbuster do amor hollywoodiano ou mesmo das velhas formulas. Afinal, este é um livro cujo conflito é baseado em um casal, mas que não é um livro de amor.

O Fim da Eternidade fala sobre uma época em que os humanos dominam a técnica da viagem no tempo, de forma que um grupo reside numa espécie de atemporalidade chamada Eternidade, cujo objetivo é salvaguardar a humanidade de suas decisões estúpidas alterando os eventos de forma a evitar grandes catástrofes.

A Eternidade existe fora do Tempo, sendo dividida em diversos setores, cada um responsável por um século, estendendo-se desde o século XXVII, o inicio da Eternidade, até o infinito, no entanto, nem todos os setores possuem pessoas trabalhando neles, pois após o século 150.000 não havia mais seres humanos na Terra, dispensando a necessidade de pessoas responsáveis por estes setores, assim também como o período correspondente entre os séculos 72.000 e 150.000 eram impenetráveis, sendo portanto chamados Séculos Ocultos.

Os Eternos, como são chamados os pertencentes a essa organização, escondem seus verdadeiros objetivos da humanidade, que não seria capaz de entender os conflitos éticos nos quais eles estão inseridos: alternar a realidade pode acabar encurtando a vida de algumas pessoas, apagando a vida de outras, arruinando algumas.

Andrew Harlan é um Técnico, isto é, um Eterno responsável por calcular os pontos exatos de Mudanças de Realidade que causariam os efeitos máximos, com o mínimo de modificação, que vê-se apaixonado por uma Não-Eterna, uma Tempista, chamada Noÿs Lambent durante uma observação no século dela, contrariando todos os princípios da Eternidade, afinal estão prestes a fazer uma modificação dentro do século dela que pode fazê-la deixar de existir.

O livro é bastante complexo, lidando com questões acerca de ética, filosofia, amor, questões extremamente densas que o autor passa de uma forma tão fluída que desejamos a todo custo tentar adivinhar o que acontecerá, o desfecho é, no entanto, surpreendente.

Um dos melhores livros sobre viagem no tempo, sem duvida, nos faz refletir sobre a validade de modificar o tempo de forma a evitar catástrofes, o quanto disso é realmente ético e também o que isto levado às ultimas conseqüências pode causar dentro da humanidade. Também é um livro que retrata as escolhas que fazemos por amor, e a própria escolha que é o amor, sem, no entanto, cair em clichês, nos fazendo também refletir sobre a própria natureza do apaixonar-se.  É um livro fantástico, não só para os fãs do gênero, sendo sem sombra de dúvida um dos melhores livros, senão o melhor, de Isaac Asimov, nos fazendo perder o fôlego e queimar alguns neurônios do inicio ao fim.

Fundação (Trilogia da Fundação # 1)

Texto original publicado em: Aliadas Literárias


  • Autor: Isaac Asimov
  • Ano: 2009 / Páginas: 239
  • Idioma: português 
  • Editora: Aleph
Entrando no clima do nosso clube do livro (dia 12 de março, na ler do shopping Aldeota), a resenha de hoje é sobre um dos mais incríveis livros de ficção científica da literatura mundial: Fundação de Issac Asimov.

A trilogia da fundação, relançada aqui no Brasil em 2010 pela Alef, e mais tarde sua expansão de mais quatro livros (lançados aqui em 2012 pela mesma editora), falam sobre um futuro distante em que a origem da humanidade foi até mesmo esquecida, e a raça humana está espalhada por toda galáxia, num império que tem aproximadamente 14 mil anos e uma população de quintilhões e aparentemente duraria para sempre.

Nem tudo, no entanto, que aparenta é e um brilhante cientista chamado Hari Seldon desenvolve uma ciência capaz de calcular os acontecimentos do futuro com base em probabilidades e numa precisão matemática. 

Em seu cálculo, ele percebe que a aparência de eternidade do império não é nada mais que isto e que, de fato, dado a estagnação deste, seu poderio iria decair nos próximos séculos até desaparecer completamente, largando a galáxia a uma existência fragmentada e caótica que duraria trinta mil anos até que um segundo império pudesse ser erguido novamente. É para Seldon, praticamente impossível reverter o processo de declínio do império, mas através da psico-história (a ciência que ele desenvolvera) era possível diminuir a devastação dos acontecimentos e reduzir o tempo de espera para um Segundo Império em 29 mil anos.

Fundação, o primeiro livro a ser lançado da série, inicia-se ai, com Seldon convencendo as autoridades de Trantor, a capital do império, a deixá-lo construir uma enciclopédia galáctica com todo o conhecimento do universo, uma tarefa que não seria terminada em seu tempo, mas seria feita através de suas Fundações em pontos opostos da galáxia.

A Primeira Fundação, para onde Seldon foi enviado com uma série de cientistas foi colocada numa região periférica da galáxia chamada Terminus, um planeta desimportante, pequeno, quase sem matéria prima, mas que atenderia à demanda da criação da Enciclopédia que salvaria a humanidade.

Isto se a criação da Enciclopédia fosse de fato verdade; cinquenta anos depois da criação da Fundação, no que seria o lançamento do seu primeiro volume, Seldon, morto há anos, mas presente graças a uma gravação que fez, revela seu verdadeiro plano, o Plano Seldon.

E é ai que a história da Fundação realmente começa, segundo o Plano Seldon, a Fundação é o berço para a criação de uma nova sociedade, o Segundo Império, mas não é um plano acabado, muito pelo contrário; ela ainda passaria por diversas crises ao longo dos próximos mil anos, chamadas de Crises Seldon.

O primeiro livro é um compilado de histórias que abrangem desde a criação da Fundação até um pouco mais de 200 anos de sua história, cada uma centrada em uma Crise Seldon e também nas mudanças de paradigmas da sociedade da Fundação, suas trocas de poderes, sua evolução de planeta insignificante da galáxia para o último resquício da tecnologia nuclear, depois para o importador desta tecnologia pra o mundo.

Fundação é um livro bastante fluido, fácil de ler, a não ser quando as implicâncias da psico-história são explicadas, nestas partes, em que há princípios matemáticos e sociológicos imaginários envolvidos, o leitor terá de prestar um pouco mais de atenção, porque é uma parte realmente muito densa da história.

Este primeiro livro não é baseado em suspense, na verdade, no meio do livro você já tem uma vaga ideia de que o desenrolar do resto da história se dará de uma forma, e a graça do livro está justamente em que sabemos o que inevitavelmente vai acontecer, mas não sabemos como vai acontecer enquanto tudo parece ir contra o que deveria estar acontecendo.

Asimov brinca com nossa percepção neste livro, que tem como grande objetivo nos colocar a par da força da psico história e do seu desenrolar, é um livro de aproximação do leitor do universo que ele criou. É sem duvida um livro excelente para aqueles que gostam de livros baseados em dedução lógica e feitos inteligentes aliados a fatos e percepção destes.

O livro não tem reviravoltas retiradas do inferno, o que expressa seu domínio da forma narrativa, mas ainda assim consegue nos manter ligados dentro da história, porque o seu desenrolar é surpreendente na grande maioria dos casos. É um livro sobre o conhecimento científico, principalmente sobre o poder do conhecimento científico das exatas, num futuro tão distante que este conhecimento se aperfeiçoou de maneira a se tornar praticamente fantástico.

O primeiro livro não é um livro acabado em si mesmo, como muitas trilogias, mas é intimamente ligado às outras duas obras, como se fosse um prólogo bastante grande desta, por isto, pode ser para muitos leitores a obra mais difícil de ler, por possuir uma pegada mais psicológica do que ativa. No entanto, isto não desmerece a obra, ao contrário, torna-a imprescindível para o entendimento completo dos outros dois livros da série, que tem uma ênfase maior em acontecimentos e ação.

O Livro de Dinaer (A Guerra das Sombras #1)

Texto original publicado em: Aliadas Literárias


  • Autor: Jorge Tavares
  • Ano: 2006 / Páginas: 424
  • Idioma: Português 
  • Editora: Novo Século


      Há livros que sofrem de algo chamado Síndrome de Tolkien, uma busca por uma história original, que crie toda uma dinâmica nova, e geralmente com nomes de personagens difíceis de auxiliar. É uma grande empreitada, que nos tempos modernos, com outro tipo de velocidade narrativa em voga, é bastante difícil; e muitos autores caem na armadilha do excesso de informações dispensáveis.

O livro de Dinaer foi, no entanto, uma grata surpresa; apesar de ser um livro cujo inicio é pautado de um estranhamento e numa dificuldade de assimilar todo o contexto, depois que este é assimilado, a história torna-se bastante interessante e há, finalmente, um apelo maior aos personagens de forma a cativar o leitor.

Este é o primeiro livro de uma série de quatro, cada um contado por um narrador; no caso de Dinaer, o livro é narrado por Dinaer, uma poderosa divindade, que se apresenta à aquela que escreverá esta história, e ele parte por narrar o inicio de uma guerra contra a Terra das Sombras, que é também uma guerra dele próprio contra seu inimigo, o deus desta terra que é um império terrível que acabou dizimando praticamente todos os adoradores de Dinaer.

Para reaver seu poder na terra, Dinaer lança mão de um escolhido, que não sabe que é escolhido, Rairon, e não é o tipo de pessoa que está grata por ter sido escolhido, mas é levado pela força do destino à enfrentar a terra das sombras.

O livro tem um desenvolvimento bastante lento, porque pretende primeiro situar o leitor em todo o contexto histórico da narrativa, mas peca por esse período de contextualização ser longo demais, felizmente, Jorge Tavares corrige esse erro no meio do livro, tendo um foco maior no personagem principal, que não é uma pessoa muito fácil de se gostar, admito.

A história tem pontos fortes excelentes e é um livro que vale a pena ler até o fim.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A Arma Escarlate - Renata Ventura



A Arma Escarlate





Meu contato com Renata Ventura, a escritora do livro, foi bem recente; e é importante que eu o cite, porque se não fosse por ele era bem provável que eu jamais fosse comprar o livro; primeiro por sua semelhança com Harry Potter (fique bem claro, acredito que J.K Rowling, diferente de outras autoras que fizeram sucesso recentemente, é uma excelente escritora, o livro é muito bom, mas não faz meu estilo), segundo que eu estranhei o uso de aspas em vez de travessão para indicar as falas, bem no estilo de livros em língua inglesa. A palestra que assisti da autora, no entanto, me fez dar crédito, porque Ventura, além de uma fofa tem um discurso que muito corroboro sobre a importância do uso da cultura local em livros nacionais.

O primeiro ponto que eu gostaria de tratar é justamente a já citada semelhança com Harry Potter, o livro alias é comumente chamado de O Harry Potter Brasileiro, não por menos, em sua nota de inicio a autora deixa claro que embebeu sua idéia na de J.K, que sejamos francos não foi a primeira pessoa a criar o mito do jovem bruxo, muito menos a precursora da idéia da existência de escolas de magia, apesar de ter criado uma mitologia bastante eficiente e rica e é justamente isso que faz Renata Ventura, ela toma dessa grandiosa fonte criativa que é a mitologia de J.K Rowling e, no entanto, se diferencia desta, de forma que seu livro, de fato, lembra a ideia de HP, mas vai, além disto, muito além. E digo mais, creio que é uma obra que agradará os fãs da autora britânica.

A Arma Escarlate gira em torno de um jovem bruxo, de nome Idá Aláàfin, posteriormente chamado de Hugo Escarlate, um garoto de personalidade dúbia e forte, criado na Favela Dona Marta, em meio ao tráfico de drogas e de todos os problemas de uma comunidade periférica do Rio de Janeiro; ele não é, portanto, um garoto ingênuo, tendo desde o principio da vida entrado em contato com traficantes e mesmo com os assassinatos cometidos por estes; sua mãe, inclusive, apesar de ser uma mulher trabalhadora, havia tido muitos casos com traficantes. Em meio à um confronto entre os chefes do tráfico e a policia, Hugo descobre ser bruxo e recebe o convite para estudar na Nossa Senhora do Korkovado, a escola de bruxaria do sudeste. (há uma em cada região do país).

Uma das primeiras sacadas geniais do livro é justamente a comparação entre a dicotomia Brasil-Europa, no que concerne a cultura e também na qualidade do ensino e na estrutura diferenciada entre as escolas brasileiras de bruxaria e a escola do Reino Unido; aqui há todo um problema estrutural, como não poderia deixar de ser, contudo a autora bate diversas vezes na questão da valorização da própria cultura numa critica muito bem construída dentro da trama ao complexo de vira-lata ( também conhecido como a valorização exacerbada do que vem de fora em detrimento da cultura nacional).

Um segundo ponto que eu acho muito interessante é que ao passo que Harry Potter mantém uma certa distância do mundo “trouxa”, por assim dizer, criando toda uma mítica paralela ao nosso universo cultural; A Arma Escarlate cria um mundo que está mais para anexo do que paralelo, entrecruzando os problemas sociais da realidade brasileira “Azemola”(equivalente a trouxa) com os problemas sociais do mundo bruxo. O livro tem uma inserção ímpar na realidade social, além disso, o personagem principal, herói da trama, é um personagem extremamente denso, dificilmente encontrado em livros da categoria; que foge ao mais do mesmo maniqueísta que estamos acostumados a ver.

O que isso significa? Significa que Hugo Escarlate é uma pessoa boa, mas não é bonzinho; ele é alguém bem próximo da realidade psicológica humana real, algo que a autora consegue, de fato, passar com maestria.

Tornando o livro uma excelente surpresa para mim; de leitura fácil, acessível, sem, no entanto, ser desprovido de discussão séria; se Harry Potter é um livro que nos ensina sobre amizade, amor e perseverança; A Arma Escarlate é um livro que nos fala sobre preconceito, cultura, e também, por não? Amizade, uma amizade que se constrói em percalços estranhos e com um pouco de reticência e desconfiança típica de alguém que perdeu muito e assistiu a muita injustiça.

Super indicado como um dos melhores livros nacionais do gênero; e como uma das minhas melhores leituras este ano.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Anotações Sobre um Escândalo - Zoe Heller



Anotações Sobre um Escândalo

Segunda Edição do Livro, com a Capa alusória ao filme.

“Eu a observei com o mesmo interesse de quem observa os astros: profunda deferência e interesse morno, a observava como a uma cena de teatro, desumanizando-a; a verdade é que eu a odiava, seu modo ácido de observar as pessoas, seu jeito mesquinho, arraigado em tradição e distância. Odiava sua solidão, sua falta de empatia, seu sagaz modo de desvelar a vida como se esta estivesse pronta a ficar nua diante de seus olhos jocosos. Detestava até mesmo seu amor por sua gata. No entanto, antes de dizê-lo em voz alta, eu não havia entendido ainda o porquê de todo meu interesse em observá-la.
Entendi, de pronto, meu ódio por ela: sua presença era uma lembrança constante de quem eu viria a me tornar quando chegasse aos sessenta; ela era meu retrato de Dorian Gray, mas eu não continuava jovem a medida que ela envelhecia, não, ela era quem eu seria. Eu a odiava porque sabia que, no fundo, eu também odiaria a mim.”
(Thiago Félix, Meus sentimentos sobre Bárbara)

Anotações sobre um Escândalo é um livro de 2003, escrito por Zoe Heller; e tendo sido adaptado para o cinema em 2006 num filme de nome Notas Sobre um Escândalo, que apesar de não ser de todo fiel ao livro, é uma excelente obra.
O livro é narrado por Bárbara Covett, uma professora de sessenta anos, dona de uma vida solitária, não tendo sido casada, sem amigos, distante de sua única parente viva, sua irmã; cuja única presença constante na vida é a de sua gata Portia já idosa. Ela não é, contudo, a protagonista desde livro.
Sheba Hart, a protagonista, ingressa na St. George como a nova professora de cerâmica, onde Covett é professora há duas décadas, sendo dotada de grande simpatia e beleza, a professora de 40 anos logo chama a atenção de todos os seus colegas — incluindo-se aqui nossa narradora — e para sua desgraçada, de um dos alunos, Connolly, de 15 anos, com quem já nas primeiras páginas sabemos que ela manterá um caso.
A idéia é fazer Sheba falar, diz a narradora, colocando-se aqui como alguém a margem de toda história; uma espectadora e confidente de Sheba, por quem ela nutre uma estranha obsessão decorrente de seu intenso medo de permanecer sozinha; a solidão é a marca recorrente desta personagem — que é de longe minha favorita por sua densidade — e até mesmo seu caráter de guardiã dos segredos da protagonista é posteriormente citado como uma das provas de sua desimportância, em suas palavras, de sua inofensibilidade.

“A vida inteira eu fui o tipo de pessoa em quem as pessoas confiam. E a vida inteira senti-me envaidecida por isso —grata pela sensação de importância que se sente quando recebemos uma informação privilegiada. Nos últimos anos, entretanto, eu percebi que esta gratificação está dando lugar a uma certa indignação. Porque, eu me vejo mentalmente perguntando aos meus confidentes, você está contando isso para mim? É óbvio que eu sei porque. Eles me consideram inofensiva. [...]  me fazem suas confidencias com o mesmo espírito que fariam a um castrado ou a um padre — com a idéia de que eu estou tão fora do jogo, tão fora das coisas do mundo, que não ofereço nenhuma ameaça. O número de segredos que eu ouço está na proporção inversa do número de segredos que as pessoas acham que eu possua. E esta é a verdadeira causa do meu aborrecimento. O fato de me contarem segredos não é — nem nunca foi — um sinal de que eu me encaixo ou importo. É justamente o contrário: a confirmação de minha irrelevância.”
(P. 247-278)

Em parte devido a esta sua solidão e ao seu temperamento reservado, Bárbara é uma mulher extremamente amargurada, sempre disposta a analisar os outros, incluindo aqueles próximos de Sheba, com uma visão ácida — diversas vezes até mesmo cruel. — a jovem professora, no entanto, não tem o mesmo tratamento, apesar de ser, dentre todos os personagens principais, aquele que termina por oferecer o maior número de defeitos de caráter.
Voltando ao ponto central do livro, ao menos em seu inicio, o caso de Sheba com Connolly não acontece, como poderia se pensar, pela ausência de seu marido, ou mesmo por uma infelicidade feminina, não; o que esta jovem professora busca num garoto de 15 anos é sua jovialidade, aquele brilho de espírito, aquela franqueza que seu marido, um acadêmico tão velho quanto Bárbara, já não possui, ou jamais possuiu; a verdade é que a protagonista casou-se jovem, com um homem que se assemelhava ao seu pai, um economista muito famoso, tendo sito grata por ser “cuidada” durante tanto tempo por ele; namorar Connolly desperta seu caráter lascivo, mas também é a prova de que Sheba, mesmo em sua meia idade, não amadureceu.
Idade tem um peso constante nesta obra; assim como a questão de gênero, o diferente tratamento que damos a homens e mulheres. Enquanto o marido de Sheba, Richard, aos sessenta é um homem em pleno esplendor de sua carreira acadêmica, Bárbara, de mesma idade, está para além do declínio, completamente ultrapassada; um outro ponto, debatido abertamente no texto, é a diferença do tratamento que damos a ambos os gêneros como ofensores sexuais: muitos dizem, dirá Bárbara, que o garoto teve sorte de ter uma professorinha assim; não veriam com mesmos olhos se a situação fosse inversa, se o caso fosse de um homem de 40 anos com uma garota de 15.
A autora não exprime vantagem em ser mulher neste ponto, deixo claro. Segundo a opinião da narradora, tal fato deve-se a posição da mulher como vista como inofensiva, como subalterna; o comportamento monstruoso é sempre esperado de homens, mas quando quem faz tal comportamento é uma mulher, então a coisa foge tanto dos padrões aos quais estamos acostumados que costumamos dar menos peso ao fato de que a mulher seduziu um menor.
A leitura do livro é bastante fácil, não sendo, entretanto, um livro simplista, ao contrário: é uma obra bastante densa que põe em cheque muitos de nossos valores sociais e a forma como encaramos a vida; também o modo como lidamos com nossos desejos e emoções, principalmente com nossa solidão. É um livro que indico a todos os amantes de drama e de obras que trazem uma profunda reflexão sobre quem somos e nosso papel dentro da sociedade.

(Filme) Notas Sobre Um Escândalo:

Lançado em 2006, estrelado por Judi Dench (Skyfall), como Bárbara Covett e com Cate Blanchett (a Galadriel do Senhor dos Aneis), como Sheba Hart; sendo dirigido por Richard Eyre, com roteiro assinado por Patrick Marber.
A história do filme é muito similar a do livro, contudo, peca ao fazer de Bárbara uma vilã e por evidenciar uma homossexualidade que é, no livro, apenas suposta e que nem é um de seus pontos centrais. Também faz algumas alterações na história de forma a que possamos nos ligar mais a Sheba e escarnecer de Bárbara, o que não foram meus sentimentos para com o livro.
Entretanto, a adaptação é fantástica, o filme é excelente; sendo um dos melhores filmes de drama que já pude assistir; e apesar da história não ser totalmente idêntica a do livro, ele consegue despertar alguns dos mesmos questionamentos que faz a obra literária.